Sexta-Feira, 14 de Agosto de 2026 - 15:16:28

Geólogo mostra veio de quartzo e explica formação de cristais em Chapada

O quartzo é constituído por dióxido de silício (SiO?) e está entre os minerais mais comuns da crosta terrestre

Crédito da Foto: REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

A paisagem de Chapada dos Guimarães guarda, além dos paredões, cachoeiras e formações que se tornaram cartões-postais de Mato Grosso, registros de processos geológicos ocorridos muito abaixo da superfície e ao longo de uma história de centenas de milhões de anos. Em vídeo publicado nas redes sociais, o geólogo Caiubi Kuhn mostrou um veio de quartzo encontrado entre rochas metamórficas do Grupo Cuiabá e explicou como os cristais podem ter se formado no interior dessas estruturas.

 

 

A explicação encontra respaldo nos levantamentos geológicos da região. Relatório técnico publicado em 2025 pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) aponta que, na área do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, são reconhecidas três grandes unidades litológicas: rochas metassedimentares do Grupo Cuiabá, rochas sedimentares relacionadas à Bacia do Paraná e depósitos aluvionares recentes.

No vídeo, Caiubi começa apresentando o mineral e chama a atenção para sua composição.

“Este aqui é o cristal, o quartzo. O quartzo é formado de silício e oxigênio. Às vezes, muita gente se pergunta como eles se formaram na natureza”, explica.

O quartzo é constituído por dióxido de silício (SiO?) e está entre os minerais mais comuns da crosta terrestre. No caso mostrado pelo geólogo, o que chama a atenção não é apenas a presença do mineral, mas a maneira como ele aparece preenchendo uma estrutura no interior de rochas metamórficas.

Segundo Caiubi, o local permite observar justamente um desses veios.

“Aqui nós vemos um local onde tem um veio de quartzo no meio das rochas metamórficas do Grupo Cuiabá. Isso daqui, quando fazia parte de uma grande cordilheira, dentro dessa grande cordilheira, a mais de 5, 10 mil metros de profundidade, existiam fluidos ricos em sílica e oxigênio passando pelo meio dessas rochas”, relata.

A descrição do Grupo Cuiabá também aparece em dados oficiais do Serviço Geológico do Brasil. A unidade reúne diferentes tipos de rochas metamorfizadas, incluindo quartzitos, metarenitos, filitos e metadiamictitos. Em registros do próprio SGB, há descrição de rochas do Grupo Cuiabá muito fraturadas e cortadas por veios de quartzo leitoso, inclusive estruturas conhecidas como tension gash, associadas ao preenchimento de fraturas.

O Plano de Manejo do Parque Nacional também registra a presença de filitos, xistos e quartzitos associados aos terrenos do Grupo Cuiabá na região.

Das fraturas das rochas aos cristais de quartzo

É justamente nas fraturas que está uma das chaves da explicação apresentada pelo geólogo. Durante processos geológicos em profundidade, fluidos podem circular por fissuras e outras estruturas das rochas. Mudanças nas condições físico-químicas favorecem a precipitação da sílica e o crescimento do quartzo no espaço disponível.

Caiubi explica esse processo a partir do próprio afloramento observado em Chapada.

“Em alguns locais onde havia algumas fraturas, alguns tipos de estrutura, poderiam ocorrer esses processos de cristalização do veio de quartzo.”

O material encontrado no veio, entretanto, não apresenta necessariamente a mesma aparência em toda a sua extensão. O geólogo mostra que há tanto quartzo de aspecto branco e leitoso quanto cristais mais bem definidos e translúcidos.

“Aqui a gente tem um veio de quartzo, que é esse quartzo leitoso, na maioria das vezes branco. Mas nós também temos aqui, nesse veio de quartzo em especial, cristais como este, que são bastante bonitos, bem formados, e eles têm a mesma composição química desse outro branco aqui.”

Apesar das diferenças visuais, os exemplares apresentados pertencem ao mesmo mineral. Segundo a explicação de Caiubi, uma das razões para a formação de cristais mais definidos está relacionada às condições e ao tempo disponível para que o crescimento cristalino ocorra dentro do espaço existente no veio.

“A única diferença é que esses cristais aqui tiveram bastante tempo para se formar dentro desses veios. Então, os átomos de silício e de oxigênio tiveram bastante tempo para se organizar e formar lindos cristais como este, de quartzo”, afirma.

O exemplo também ajuda a revelar uma Chapada dos Guimarães diferente daquela percebida apenas pela superfície. A geologia do município não é formada por uma única unidade. O Serviço Geológico do Brasil destaca que o Parque Nacional está inserido no domínio da Bacia Sedimentar do Paraná e que sua configuração reúne as antigas rochas metassedimentares do Grupo Cuiabá e sequências sedimentares posteriores.

Essa diversidade pode ser percebida até mesmo entre os principais pontos turísticos. Enquanto as áreas relacionadas ao Grupo Cuiabá apresentam rochas metamórficas, o SGB identifica, por exemplo, os conhecidos paredões da Cachoeira Véu de Noiva como constituídos por arenitos da Formação Furnas.

A própria relevância geológica de Chapada extrapola o interesse científico. O SGB classifica o Mirante do Centro Geodésico, no município, como geossítio de relevância nacional, com valores científico, educativo e turístico reconhecidos.

Ao final do vídeo, Caiubi resume a importância do ponto mostrado por ele: ali é possível observar, lado a lado, diferentes formas assumidas pelo mesmo mineral e compreender um processo que ocorreu no interior das rochas.

“Para quem tinha dúvida de como o quartzo se forma na natureza, aqui é um local onde nós temos tanto quartzo leitoso como esse quartzo translúcido. E aqui é onde esses quartzos se formaram.”

O pequeno cristal exibido no vídeo, portanto, funciona como uma espécie de testemunho da história geológica da região: resultado de processos que envolveram soterramento, transformação das rochas, fraturamento, circulação de fluidos e cristalização, uma história preservada nas rochas que hoje estão expostas na paisagem de Chapada dos Guimarães.



Autor: Alô Chapada
Data: 12/08/2026